O monólogo acima é dito pelo personagem de Mickey Rourke, Ram, em determinado momento do filme. Não é apenas a descrição perfeita para Ram, mas também para o seu intérprete. A carreira de Rourke deslanchou na década de 80, mas ele decidiu se dedicar por algum tempo ao boxe, virou vítima constante de tablóides e passou por dezenas de cirurgias - além de seu envolvimento com drogas. A sua carreira afundou. Começou a viver pelas glórias passadas - afinal de contas, era descrito como um galã em ascenção, no seu tempo. Talvez por esse triste fato que O Lutador funcione tão bem.
Não é um filme comum. Não é Rocky, Um Lutador. Muito pelo contrário. Ram se aproxima muito mais do Jake La Motta de Robert De Niro em Touro Indomável do que o personagem vivido por Stallone. E esse é o maior acerto do filme, pois Ram é um personagem triste, agressivo quando precisa e sensível a seu próprio modo. O seu passado dita as suas ações, tomado por esse sentimento de perda. Perda de que? Da família? Da fama mundial? Essas perguntas podem não ser respondidas corretamente, mas isso não importa. Aos poucos, vamos entendendo seu personagem. E é mérito da performance arrebatadora de Rourke. Nunca sabemos quem o ator está interpretendo: se é Ram ou ele mesmo. A assustadora realidade é tão próxima que nunca nos demos conta de quem é mesmo a história que vemos na tela.
Entretando, algo muito importante para este estudo é a própria filha de Ram: Stephanie. Apesar de não participar efetivamente no longa, ela aparece somente nas cenas próprias. E Evan Rachel Wood faz o seu melhor nessas poucas cenas, fugindo de qualquer clichê de relação complicada entre pai e filho, graças ao seu talento. Ao invés de se comportar apenas como uma garota rebelde e que escapa de todas as tentativas de ser conquistada por seu pai, Evan Rachel Wood mostra Stephanie como uma garota magoada, triste, e se antes a sua raiva pelo seu pai vai diminuindo cada vez mais, ela é capaz de estourar com o medo do lutador a abandonar novamente. Já que mencionei a relação com o pai, vale lembrar que mais uma vez a química que Rourke tem com mais essa personagem feminina é essencial.
A cena final, em que Ram entra no ringue ao som de "Sweet Child O'Mine", de Guns's Roses, é antológica. Toda a cena final, impactante. E Mickey Rourke tem todos os créditos disso. Se era o que ele precisava para redimir a sua carreira, ele conseguiu. Ele é o verdadeiro lutador, afinal.
O Lutador
The Wrestler, 2008
Direção: Darren Aronofsky. Roteiro Original: Robert D. Siegel. Elenco: Mickey Rourke, Marisa Tomei e Evan Rachel Wood.
P.S.: O filme não tem um final cheio de respostas, portanto não espere assistir a um longa bonitinho, encantador e com um final todo certinho. Ele é um filme denso, profundo e bastante complexo. É um daqueles que tem que entrar no psicológico dele pra entender bem.
P.S.²: Não posso deixar de comentar a injustiça de não ter sido indicado ao Oscar de Filme. Bom, ainda vou ver todos os candidatos e falarei aqui. Mas já adianto: é melhor que Benjamin Button - e eu gostei bastante do filme de Fincher.
P.S.²: Não posso deixar de comentar a injustiça de não ter sido indicado ao Oscar de Filme. Bom, ainda vou ver todos os candidatos e falarei aqui. Mas já adianto: é melhor que Benjamin Button - e eu gostei bastante do filme de Fincher.
3 comentários:
Nossa esse filme deve ser beem legal
É o filme do ano até o momento, belíssimo. E foi uma pena o Rourke ter perdido o Oscar, ainda que desconfie que Sean Penn em Milk também vá me encantar ... E vc está totalmente correto quando diz que o filme tem muito mais a ver com Touro Indomável do que com Rocky.
Vejo que as nossas opiniões são antagónicas, mas para mim, The Wrestler fora dos piores filmes do ano, e o desempenho de Rourke não merecia sequer uma nomeação ao Óscar.
Abraço
Postar um comentário